Death Stranding | Review

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Hideo Kojima já havia dito que Death Stranding seria um ponto fora da curva, proporcionando algo único e fugindo do padrão de um game atual - e devo adiantar que com toda certeza ele conseguiu.

Todo game é único e nos proporciona uma experiência diferente – seja ele online ou single player; ação ou point and click – aquela campanha, personagem e duração é apenas sua. E quando as pessoas começaram a falar sobre Death Stranding, Hideo Kojima já havia dito que seria um ponto fora da curva, proporcionando algo único e fugindo do padrão de um game atual – e devo adiantar que com toda certeza ele conseguiu.

Apenas o nome de Kojima, já era criada uma grande expectativa em cima do game, onde esperávamos que o mestre após problemas com a Konami, tivesse ganhado uma grande liberdade de expandir sua mente com seu próprio estúdio e ao lado da Sony/Playstation.

Que se inicie a saga das entregas!

Não é apenas uma história, mas sim uma conexão

Com uma história bem diferente, nós jogamos com Sam Porter Bridges (Norman Reedus), apenas um entregador que recebe a missão de ajudar a unir a América novamente. Tudo ocorre após o fenômeno nomeado de Death Stranding que uniu o mundo dos vivos com o dos mortos, criando uma espécie de “limbo”, principalmente por conta das chuvas quirais. 

Seu objetivo é simples; conectar as regiões para manter uma comunicação e as pessoas voltarem a se ajudar como era antes. Ah se fosse assim…mas o cratera é um pouco mais embaixo, literalmente. Sam não só é o único que consegue cumprir essa missão, pelo fato de ter DOOMs – que seria como um sentido aranha, onde ele tem uma sensibilidade maior pelos “BTs”, que são essas criaturas – podendo assim concluir a entrega de forma mais fácil, principalmente depois de salvar um dos BBs, dando um maior suporte para ele.

Os BBs – Bridge Babies – foram criados apenas para conseguirem detectar os BTs, facilitando a locomoção das  pessoas pelo mundo, basicamente sendo apenas um objeto de trabalho e que pode ser totalmente descartado – pelo menos são as palavras usadas por Deadman (Guillermo Del Toro), que parece apenas um médico frio mas que tem um passado bem complicado, igual todos que aparecem no game.

Com a ajuda de Sam ligando os terminais, a UCA (Cidades Unidas da América) finalmente pode começar a reconstruir a América, assim como a Presidente queria tanto. Somos guiados por seu braço direito, Die-Hardman (Tommie Earl Jenkins), nos direcionando para onde devemos ir – mas são os clientes e os terminais que determinam aonde deve ser feita a entrega e a quantidade que precisamos levar, e vai por mim é mais difícil do que parece. Os entregadores de pizza e do iFood tem ainda mais meu respeito após esse jogo, afinal não é nada fácil carregar 200kg e vários BTs a sua volta em uma floresta apertada – e não é exagero.

E você deve estar se perguntando: “Nossa..mas não vai ser chato ficar só fazendo entregas e mais nada?”, e a resposta é NÃO. A campanha do game é muito mais que isso e vou explicar melhor. Mesmo que ele comece de forma meio lenta, ainda sim tudo acontece de forma diferente enquanto estamos caminhando, ou como diria o Sam “Pelo menos a caminhada tá em dia”. Iremos encontrar todo tipo de terreno seja ele cheio de pedras, uma montanha de neve e até mesmo com várias Mulas no caminho – que seriam pessoas que ficaram viciadas em entregas e roubam sua carga, basicamente ladrões. 

Então para facilitar um pouco nossa vida precisamos sempre estar pensando em caminhos diferentes, principalmente no começo ou quando iniciamos em uma parte nova do mapa – que é dividido em três – nos proporcionando experiências diferentes. O bom é o que vamos conquistando no caminho, seja uma perna mecânica que ajuda a carregar mais peso ou andar mais rápido com o engenheiro, uma perna que ajuda a gente a andar melhor na neve e até mesmo a possibilidade de construir pontes e estradas com objetos que vamos encontrando – metal, cerâmica e assim vai – dando sorte de até conseguir fazer uma tirolesa, isso sim é uma entrega diferenciada. 

Mesmo que às vezes possa ser um pouco cansativo e silencioso, pode ser essa a intenção de Kojima, nos transportando realmente para a pele de Sam, onde a solidão é nossa amiga e devemos descobrir como sobreviver com ela durante o caminho – mesmo que a gente acabe interagindo com personagens, não é o tempo todo. Mas algo que está sempre conosco é nosso BB – ou se preferir, o Lou – e também nosso Odradek, que quando tem um BT proximo nos alerta do quão próximo, com a ajuda do BB, e que também serve como scanner de reconhecimento de terreno – nos ajudando a encontrar objetos e pessoas que podem estar próximas de lá. 

E antes que eu me esqueça de algo muito importante; nós sempre devemos olhar o BB, que mesmo sendo “apenas um objeto”, ainda chora e precisa de cuidado, então quando sofremos algum acidente e ele começa a chorar, devemos pegá-lo e com o balanço do controle acalmar seu choro – algo que pode parecer irritante, mas na verdade é bem divertido, te dando ainda mais responsabilidade.

Cuide bem do seu BB!

E se falamos de conexão, não podemos esquecer da importância que os personagens tem na vida de Sam em toda sua saga. Já falei um pouco sobre o Die-Hardman e Deadman, então vamos para os próximos, começando com Amelie (Emily O’Brien), que após embarcar em uma viagem para reconectar a América precisa retornar para tomar o lugar da Presidente após seu falecimento, mas que apenas Sam pode salvá-lá já que Higgs também está atrás dela por motivos não muito ortodoxos. Seguindo para Higgs (Troy Baker), o líder dos Homo Demens – um grupo militante separatista que só deseja se manter fora da UCA, mantendo a independência da cidade de Edge Knot. Higgs alega entender a verdade do Death Stranding, afirmando que é difícil para as pessoas formarem conexões quando nem mesmo conseguem apertar as mãos.

Fragile (Léa Seydoux) – herdeira da Fragile Express – que após a morte de seu pai precisou cuidar da empresa de entregas, sofreu poucas e boas na mão de Higgs, tendo se sacrificado de forma significativa para salvar o terreno que abriga toda sua empresa, mas que também devastou outros, separando muitos nesse tempo. Mas como ela já mesma disse; “Meu nome pode ser Fragile, mas eu não sou tão frágil assim“. E se vamos falar de mais uma personagem feminina forte, que com toda certeza seja a Mama (Margaret Qualley), uma das personagens com mais conteúdo e que acaba trazendo uma emoção que é difícil explicar, só jogando pra realmente conseguir entender e também não quero estragar a experiência de ninguém, mas já adianto que vai valer a pena.

Eu não quero ficar me alongando muito falando apenas dos personagens, sendo que temos tantos e muito ainda sobre o que falar, mas já quero adiantar mais dois que são importantes e que vivem com a morte e o problema do passado; Clifford Unger (Mads Mikkelsen) e Heartman (Nicolas Winding), acreditem em mim vai valer muito a pena conhecer mais a fundo e vão me agradecer por não entrar em detalhes. Mas é isso que irá tornar todos ainda mais interessantres, já que cada capitulo da campanha é direcionado para um, contando um pouco mais sobre seu passado e o que ele será na vida de Sam.

“Eu dei a luz a morte, mas foi ela quem me manteve viva” – Mama

Gráficos, jogabilidade e trilha sonora de outro mundo

Se tem algo que o Kojima pode colocar no currículo que sabe fazer muito bem é ambientação e escolha gráfica – mesmo que a gente durante a E3 e outros vídeos liberados por ele mostrassem um pouco de gameplay – quando iniciei minha campanha senti meus olhos enchendo de lágrimas pela emoção de estar vendo aquilo. Fazia um tempo que não sentia isso com um jogo e posso dizer com tranquilidade que os últimos que senti isso foram The Last of Us e Red Dead Redemption 2, sem pensar duas vezes.

Toda a base usada na montagem dos ambientes terrenos, bases e objetos é surpreendente. Temos tantas referências que nem se fala, como Horizon Zero Down, Alien/ Prometheus e até mesmo RDR2 pela grande quantidade de montanhas, sentimos cada referência de forma única dando uma alegria, não só por estar ali naquele mundo que ainda não entendemos, mas que por conta dessas pequenas referências talvez nós possamos entender facilmente.

E se tratando de Death Stranding, que toda hora fala sobre como as pessoas precisam se conectar e se ajudar, Kojima teve a ótima ideia de fazer isso até mesmo entre os jogadores. O game conta com um multiplayer assíncrono, onde mesmo que não exista um contato direto com os jogadores existem multiversos onde os mundos dos jogadores são conectados. E que mesmo que eles não se encontrem podem ainda sim de alguma forma ajudar um ao outro, como por exemplo; se construirmos uma ponte ou deixamos uma escada, aquele outro jogador pode encontrar e usar, sendo algo maravilhoso para aqueles momentos que sua escada acabou ou não queremos dar uma longa volta e temos uma bela ponte ao nosso aguardo.

Algo que também é possível, por conta desse sistema online, é que podemos usar as CQPs para criar pequenos terminais que servem de armário, onde podemos guardar nossas coisas no “privado” ou podemos deixar algumas coisas no “armário compartilhado”, servindo para quem encontrar e precisar possa pegar – sendo possível fazer isso com qualquer equipamento e até mesmo com veículos. Por isso jogadores não deixem de ajudar o coleguinha do multiverso do seu, afinal nunca se sabe quando você também vai precisar.

Algo que também é bem interessante são as consequências impostas no jogo. Quando alguém morre e não é cremado, pode acabar se tornando um BT, formando uma obliteração no solo, que é quando um grande cratera é aberta e não podemos mais passar por aquele ponto. E isso também ocorre durante uma luta com um monstro BT mais forte e somos pegos, causando uma grande obliteração – então não deixem isso ocorrer. Mas voltando as armas, temos a opção de armas letais, não letais e todas com compatibilidade de uma bala anti-BT, onde usamos  o sangue de Sam como base. Ela normalmente é bem mais útil contra os Mulas, que usamos apenas balas de borracha e até mesmo cordas que prendem eles no chão. Lembrando que isso deixa eles desacordados por um tempo, mas depois eles voltam normalmente, então de certa forma os acampamentos de Mulas sempre estará ali, mas você pode ter sorte de conseguir passar mais vezes ali enquanto estão sem consciência.

E agora passando um pouco para a trilha sonora. Muitos vão dizer que o game é todo o tempo som ambiente apenas, mas quem diz isso não sabe aproveitar os pequenos momentos. Senti um forte arrepio quando começou a tocar ‘Silent Poets – Asylums For The Feeling‘ que vocês nem acreditam. As vezes quando chegamos a novos pontos do mapa, somos surpreendidos por uma música tocando, como se estivéssemos com um fone e começasse a tocar na rádio, trazendo um ar de tranquilidade para aquele ambiente hostil e silencioso nas caminhadas de Sam – e que até podemos escutar depois quando estamos no quarto privado descansando e recompondo as energias do personagem. Já em outros momentos – seja pelo ataque das Mulas com uma música mais agressiva – ou quando estamos em uma cutscene, que pode ter um som mais ambiente, elas influenciam muito para a cena, tendo uma grande importância, principalmente se vocês estiver bem atento para as letras. 

Vale a pena?

Se tem uma coisa que vale muito a pena é jogar Death Stranding. Hideo Kojima conseguiu de forma espetacular trazer elementos pelo qual ele já era conhecido em Metal Gear, para um mundo totalmente diferente e único, principalmente na história – que nos é explicada não só pelos personagens, mas também ler a caixa de e-mail pode ser bem importante.

O game é uma experiência imersiva e contemplativa, onde os elementos casam de forma natural e tudo nos causa uma certa curiosidade, nos levando para todos os pontos de uma forma muito fluida e sem nenhum rodeio – apenas com caminhadas. Mas mora um pequeno problema em volta disso tudo: ele será totalmente um ame ou odeie. Death Stranding infelizmente não é um jogo feito para todo mundo, onde Kojima pode ter arriscado fazer algo muito diferente e criando uma grande divergência de opiniões, mas que também é o que pode tornar o game ainda mais interessante, já que vivemos em um mundo onde não se pode mais ter opiniões diferentes, fazendo com que algo muito bobo afaste as pessoas. Mas quem sabe pode ser Kojima quem vá conectá-los novamente junto de Sam, não é mesmo?

Com uma boa história, gráficos, trilha sonora, personagens e vontade de arriscar com algo único, Death Stranding é um game que com toda certeza daqui um tempo jogarei novamente, fazendo valer minhas 90 horas jogadas durante o processo de campanha, onde explorar, ajudar e se conectar é o essencial para sobreviver.

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