ATENÇÃO: Contém spoilers de pedaços da saga de livros “As Crônicas de Gelo e Fogo” (mais especificamente “Tormenta de Espadas” e “Dança dos Dragões”) e do último episódio de “Game of Thrones”, “Unbowed, Unbent & Unbroken”.

Para muitos dos fãs da série “Game of Thrones” na HBO, Jeyne Poole é um nome pouco familiar, há quem dirá irreconhecível. Também pudera, uma vez que a jovem foi completamente erradicada da trama na adaptação para as telas da obra de George R. R. Martin. Bom, se ela foi cortada é por que ela não é de suma importância para a progressão da história, alguém argumentaria, e esse alguém estaria parcialmente correto. Então por que diabos ela é o grande foco deste artigo? Antes de entender o porquê, vou apresentar àqueles não familiarizados com a personagem quem é afinal, Jeyne Poole, ou para alguns “Arya Stark”. Para aqueles já familiarizados com ela, sintam-se livres para pular para o final deste artigo, onde comento os últimos acontecimentos da série envolvendo Sansa Stark.

Jeyne Poole era filha de um dos subalternos de Eddard “Ned” Stark em Winterfell, Vayon Poole. Ela era sua única filha. Apesar de não ser uma menina nobre, era permitido a Jeyne atender as mesmas aulas e frequentar os mesmos espaços que Sansa e Arya Stark. Elas faziam trabalhos de costura juntas e outras coisas que eram vistas como propícias para as meninas. Por passar tanto tempo ao lado de Sansa, na realidade, ser sua melhor amiga, é praticamente indiscutível que as duas tinham gostos muito similares e, por que não, personalidades também. Não é muito difícil imaginar que Jeyne Poole compartilhava com Sansa Stark o sonho de um dia se casar com “seu cavaleiro encantado” (ela demonstra admiração por Berric Dondarrion em certo momento, bem como Sansa demonstrou por Loras Tyrell) e viver num castelo como o de Winterfell. Eu digo imaginar, pois George R. R. Martin nunca nos apresenta Jeyne formalmente, nunca nos fala seus gostos ou paixões, nunca sabemos o que ela acha de Sansa ou de outros ao seu redor, afinal esse não é o propósito de Poole na história. Seu propósito é muito mais direto e obscuro.

Sansa e Jeyne Poole
Jeyne Poole e Sansa Stark na série

Diferente do seriado da HBO, Jeyne Poole segue viagem para Porto Real (King’s Landing) junto com seu pai e o resto da comitiva Stark, composta também por Ned, Sansa e Arya Stark. A partir daí as histórias são bem semelhante entre os dois meios, livro e série: Cersei e Mindinho num movimento audacioso após a morte de Robert Baratheon, acabam com todos os Nortistas em Porto Real. Homens e mulheres da comitiva são assassinados e Ned Stark é jogado nas masmorras para aguardar o julgamento do Rei Joffrey por traição. Mas nem todos os Nortistas morrem nesse massacre. Além de Sansa Stark, Arya e Ned, Jeyne Poole também consegue sair com vida.

De início, Sansa e Jeyne são mantidas juntas como prisioneiras dos Lannisters. Jeyne visivelmente perturbada com a situação sempre chorava por seu pai. Ao que tudo apontava ela era ainda mais frágil que sua amiga Stark perante a situação. Sansa tenta saber do paradeiro de Vayon Poole (ele fora morto no massacre) quando ela se reúne com Cersei, de modo que ela possa acalmar as preocupações de sua amiga, porém a Rainha Regente lhe responde com uma ordem de que elas seriam separadas e que Jeyne deveria passar para a guarda de Mindinho.

A partir daí, Jeyne Poole jamais é vista ou mencionada de novo de forma significante por um longo período. Não sabemos nem que “serviços” ela foi obrigada a fazer quando sobre a custódia de Mindinho.

Sansa-Stark

A filha de Vayon retorna mais uma vez no terceiro livro da série “As Crônicas de Gelo e Fogo”, agora sobre o falso nome de “Arya Stark”. Ela se apresenta como a filha mais nova de Ned e Catelyn Stark para Ser Jaime Lannister quando este fazia a viagem entre Harrenhal e Porto Real. Jamie rapidamente nota que Jeyne Poole não é Arya e informa o fato para Brienne de Tarth, apenas para que ela não perca foco de sua missão de resgatar as verdadeiras filhas de Catelyn indo atrás de uma garota “falsa” e desimportante. Jeyne é inteiramente vestida como uma menina nobre, incluso jóias e emblemas dos Starks e em seguida é enviada para o Norte para se casar com Ramsay Bolton, aquele “amor de pessoa” que ambos, fãs da série e fãs do livro conhecem bem.

Ramsay, diferente de sua persona no seriado, é um cara ainda mais vil e cruel. Apesar de na série ele ter alguns dos mesmos hábitos doentios, na obra original de George R. R. Martin, Ramsay adora perseguir mulheres nuas pelas florestas como se as caçasse. Aliás, “como” não, é exatamente isso o que o bastardo Bolton faz: ele as caça. E sempre com uma matilha de cães raivosos e carniceiros em seus encalços. Após as capturar ele as estuprava e as matava, “homenageando” as suas favoritas dando seus nomes para seus cachorros. Ele também tem uma grande satisfação por retirar a pele de pessoas e, como todos sabem (em especial Theon Greyjoy), de tortura-las. Mas, quem se importa? Com certeza ninguém em Porto Real, pois Jeyne é enviada para casar com Ramsay sobre o falso nome de “Arya” para legitimar ainda mais sua reivindicação ao Norte. Jeyne é, para todos os efeitos, apenas uma peça no quebra-cabeças do Jogo dos Tronos.

Uma vez no Norte, Theon (“Fedor”) reconhece “Arya Stark” como Jeyne Poole. Apavorada, a pobre menina implora para que Theon a rapte e a leve embora dali. Ela oferece inclusive ser sua esposa caso ele o fizesse, ou até mesmo “sua prostituta”… Tamanho era seu desespero em casar-se com Ramsay Bolton. Theon nada faz a não ser aconselhá-la a fazer tudo o que Ramsay mandar, ao mesmo tempo em que a assusta ainda mais narrando o comportamento violento e sádico de seu Senhor.

Sansa e Ramsay

Jeyne é descrita como estando apavorada durante o seu casamento. Descrita, pois ela não é a estrela de seu próprio tormento, ela nunca ganha um ponto de vista na obra de George R. R. Martin e é apenas retratada pelos olhos de outros personagens, nesse caso Theon Greyjoy. E é através dos olhos dele que os tormentos de Jeyne são narrados, as vezes de forma bem gráfica.

Theon é “convidado” para acompanhar Ramsay e Jeyne até seus aposentos, onde seu Senhor pede que ele corte o vestido da jovem e a deixe nua, revelando já sinais de abusos físicos em seu corpo que ela murmura terem sido parte de seu “treinamento” (causados por Mindinho – ou por ordens dele – para “torna-la” Arya Stark). Ramsay então ordena que Theon a violente, para logo depois ele poder fazer o mesmo. “Fedor”, fomo sempre, obedece a seu Mestre.

Jeyne Poole então fica famosa em Winterfell pelas suas marcas de abuso físico e pelo seu eterno lamento em forma de choro que ecoa pelos corredores do castelo.

Mais um longo período sem sabermos da jovem, até que finalmente uma tentativa de resgate é feita para “Arya Stark”, liderada por Mance Rayder (sim, o próprio) na companhia de um pequeno exército composto em sua maioria de mulheres livres (ou selvagens, como preferir). A tentativa falha e Mance é aprisionado. Todas as mulheres em seu exército são esfoladas vivas por Ramsay e suas peles são dadas de presente para o prisioneiro como “roupas” para ele se proteger do frio do Norte.

sansa ramsay

Theon eventualmente ajuda na fuga de Jeyne, que a princípio, de tão atormentada e ferida com as torturas e estupros de Ramsay Bolton, se nega a deixar Winterfell, alegando que “ama [Ramsay] e que ficaria com ele”, que “Theon não precisava testá-la” e que “ela se deitaria com o cachorro novamente caso ele [Ramsay] quisesse” e que ela jamais fugiria então “não precisava lhe cortar os pés”. Uma vez convencida, e já no caminho para o acampamento de Stannis Baratheon, que está aumentando o cerco em Winterfell, Jeyne enfrenta um frio tão congelante que ela chega a perder uma parte de seu nariz. Ao finalmente estarem livre das garras de Ramsay, Theon lembra Jeyne que ela deve manter a identidade de “Arya Stark”, por que Jeyne Poole não importa, Jeyne Poole é apenas uma “prostituta”. Ela mantém a farsa e é enviada para a Muralha com o objetivo de encontrar seu “irmãoJon Snow.

E essa é a história de Jeyne Poole até o momento. Agora a pergunta: por que a história dela é tão relevante? A verdade é que a história de Jeyne Poole, apesar de ser uma das mais trágicas de toda a saga “As Crônicas de Gelo e Fogo” não é tratada como algo particularmente importante para ninguém fora e dentro dela, exceto talvez Theon e Ramsay. Jeyne, a própria, nunca é estabelecida como uma personagem, mas sim como uma peça, alguém extremamente secundário e sem importância. Você dificilmente verá fãs de Jeyne Poole ou pessoas que se importam – realmente – com o que vai acontecer com a filha de Vayon Poole ao longo da trama que envolve personagens muito mais bem desenvolvidos como Tyrion Lannister, Daenerys Targaryen e Arya Stark.

Na verdade, o livro em si está recheado de personagens como Jeyne. Mulheres que não são protagonistas e nem mesmo são muito bem estabelecidas como personagens, mas sofrem diversos tipos de abusos físicos e mentais ou/e são muletas para a história dos verdadeiros protagonistas da trama, seja este um homem ou uma mulher. Muitos leitores dos livros com certeza se lembram de Jeyne não por ser filha de Vayon Poole ou por ser uma garota tão sonhadora quanto Sansa Stark foi um dia, mas sim pelos abusos que ela sofreu nas mãos de Ramsay e de seu eventual resgate por Theon. Talvez até a conheçam mais como “falsa Arya” do que como Jeyne Poole. Esses mesmos leitores com certeza se lembram também de Lollys Stokeworth única e exclusivamente por que ela foi estuprada mais de cem vezes ao longo da saga ao ponto de ficar levemente louca… E isso ainda é motivo de piada entre alguns personagens dos livros. E quem honestamente consegue lembrar dos nomes das mulheres selvagens que Ramsay assassinou e esfolou do exército de Mance Rayder?

Tá, mais o que diabos isso tudo tem a ver com alguma coisa? Bem, no mais recente episódio do seriado de “Game of Thrones” intitulado de “Unbowed, Unbent & Unbroken”, nós vimos que com a ausência de Jeyne Poole da trama, coube a Sansa Stark tomar o papel de sua amiga. Ela casou com Ramsay (ao contrário de Jeyne, por vontade própria) para tentar reaver o Norte e ao mesmo tempo se vingar do homem sádico, o restante dos Bolton e dos Frey.  Mas claro, tudo ao seu tempo.

Na noite do casamento, Sansa se mostra impassível e ciente que Ramsay é um monstro. Já na cerimônia ela está nervosa e com medo, mas decide prosseguir mesmo assim. Talvez não fosse nem mais uma questão de escolha, para ser totalmente sincero. Na hora de consumar o casamento, Ramsay mostra seu lado sádico assim como nos livros e ordena que Theon fique e olhe. Diferente dos livros porém, Theon apenas fica como observador enquanto Ramsay estupra Sansa bem diante de seus olhos.

sansa

Essa alternância de personagens movimentou fãs do mundo inteiro em abandonar (ou ao menos proclamarem abandonar) a série. Alguns deles, nunca leram os livros, apenas não aguentam mais ver tanta coisa ruim acontecendo a personagens que eles gostam, seja este homem ou mulher. E, sinceramente, é algo a se respeitar e compreensível. Quem nunca parou de ver algum seriado por que algum personagem foi embora, ou morreu, ou começou se perder que atire a primeira pedra. Mas agora é que as coisas ficam confusas, e esse post está inteiramente direcionado a essas pessoas: alguns desses fãs, na verdade, leram os livros. Eles conhecem Jeyne Poole e sua história, mas decidiram que, por se tratar de Sansa sendo estuprada e não Jeyne, essa foi a última gota. Ainda é estranho, mas é cabível. Afinal, tem gente que prefere os livros como eles são e desejavam que tudo se mantivesse como o original, ao ponto de que grandes divergências como a morte de Barristan Selmy e agora Sansa Stark tomando o lugar de Jeyne Poole possam ter culminado nesse desapego com o seriado. Compreensível. Dito isso, existem “fãs” dos livros à torto e a direito e em grandes portais a cerca de “Game of Thrones” no Brasil e no mundo criticando a série por ser, e estou parafraseando, “misógina” e que “a obra de George R. R. Martin era melhor em retratar as mulheres como indivíduos e protagonistas e não somente meros objetos”. Oras, como podem ver, Jeyne Poole seria a primeira a discordar dessa afirmação, com outras como Lollys e as companheiras de Mance Rayder não muito atrás, quem dirá as filhas de Craster, cuja maioria deve estar morta a essa altura (não que alguém ligue).

No fim das contas, e é exatamente onde eu queria chegar com todo esse longo texto sobre Jeyne, aqueles que querem parar de ver a série “Game of Thrones” por conta do estupro de Sansa, tudo bem. É um direito de cada um e é até, como já dito, totalmente entendível. Mas àqueles que querem parar de ver “Game of Thrones” enquanto enaltecem o quanto as mulheres são “melhores representadas nos livros de George R. R. Martin”, isso não passa de pura hipocrisia. Sansa é um personagem principal e tem um envolvimento muito maior com o público, caso Jeyne Poole estivesse em seu lugar (e ela está, nos livros) não ouviríamos nem metade. Como ela pode ser “uma mulher bem representada”, sendo uma eterna vítima e sem qualquer tipo de protagonismo se comparada a Sansa passando pela mesma situação? Ao menos para Sansa, com seu status de personagem principal, será dada uma oportunidade de crescer e lidar com o evento na série. À Jeyne dos livros? Jamais. Ela terá sorte se for sequer mencionada de novo.

Na combinação da paixão e envolvimento com Sansa (ao ponto de não quererem mais vê-la sofrer) com o purismo que muitos tem com os livros de George R. R. Martin, as pessoas se esquecem de histórias como as de Jeyne Poole e Lollys Stokeworth, que caso seguíssemos os livros a risca, teríamos nas mãos dois personagens que nada servem para o público e nem criam empatia devido a sua falta de densidade, apenas para serem mulheres agredidas, violentadas e estupradas repetidas vezes e ainda feitas de piadas em algumas ocasiões. Ao trocarem Jeyne por Sansa Stark, mesmo que sem querer, a HBO conseguiu chamar a atenção para algo que vinha (e ainda vem) sendo ignorado pelos fãs dos livros e clamantes de “misoginia” em “Game of Thrones”: histórias como a de Jeyne Poole que recheiam as páginas das “Crônicas” em diversas instâncias.

george r r martin

O mundo que George R. R. Martin criou é cruel, é vil, é traiçoeiro e é extremamente sexista, tal qual a época medieval em que se baseia (apesar de isso não ser uma desculpa). Ao ponto de ícones femininos da própria saga de livros já ter sido subjugada ou humilhada nas páginas da obra de alguma maneira, inclusive Catelyn e Myrcella que foram (e muito) poupadas pela série da maior parte dessas situações (Catelyn despida e jogada num rio; e Myrcella gratuitamente deformada no episódio de Dorne). A série nada mais faz do que representar esse mundo tão bem e envolver tão bem o telespectador que evoca esse tipo de reação nas pessoas. Talvez até melhor que o livro, dada a repercussão. A não ser que seu nome seja Jeyne Poole. Aí não importa. Não haverá posts sobre você ou sobre como sua trágica história deixou as pessoas enojadas e cansadas da “misoginia” de Martin. Na verdade, o oposto, enaltecerão o quanto ele é “bom em representar mulheres fortes e independentes”.

Encerro aqui com um comentário que li pela internet em resposta a um desses posts “misóginos” de leitores “fãs” dos livros que clamam por mais semelhanças com a obra de Martin: “Parem com os estupros em Game of Thrones! Sigam os livros! Não estuprem Sansa, estuprem Jeyne!”.

No mais, sempre cheque a classificação indicativa de um filme ou uma série antes de vê-la. “Game of Thrones” nunca foi e nunca será uma série sensível ao telespectador ou aos seus personagens. Tem nudez, tem sexo, tem traição, tem morte, tem estupro, tem tortura, tem castração, e tudo isso bem como é estabelecido não só na obra original, mas também nos primeiros episódios da série, sejam os alvos dessas “insensibilidades” homens ou mulheres.

9 COMENTÁRIOS

  1. Quem não aguenta bebe leite! Amo Sansa, amo os livros, amo a série! Quem não quer ver estupro nem tortura, vá assistir “Once Upon a Time”

    • Infelizmente estupro faz parte do mundo de Westeros. Eu não vou acusar nem a autora do texto (ou os autores de outros textos) de qualquer coisa, mas você não acha que isso diz muito sobre nós como pessoas quando está tudo bem Jeyne Poole ser estuprada de forma gráfica e descritiva, abusada mental e fisicamente apenas por que não a conhecemos e “ela é apenas uma secundária”, mas quando é uma protagonista, é “horrível e impensável”? Por que está “tudo bem” para Jeyne Poole passar por tudo isso mas não Sansa, que não tenha a ver única e exclusivamente com o fato de não ser ela a ser estuprada nos livros? Nós não sabemos o que vai se desenvolver dessa cena, então argumentar que é desnecessário é extremamente vago, e desnecessário tudo é numa trama, só se torna necessário por que o autor assim decidiu ou vislumbrou. Infelizmente, Jeyne Poole não precisava ser estuprada, quebrada, forçada a fazer sexo com cachorros e ser ameaçada de ter os pés cortados… Ela não precisava nem mesmo voltar pra trama, mas George R. R. Martin decidiu que era importante e necessário e assim seguimos.

      Num segundo parênteses, Mirri Marz Durr foi estuprada diversas vezes em campo de batalha antes de Dany tentar tomar alguma atitude quanto a isso (não que ela tenha culpa em chegar tarde demais, veja bem). Quando a atriz entra em cena e fala: “eu fui estuprada diversas vezes antes de você me resgatar”, revelando para Dany seu plano de vingança, o que essa cena diz sobre nós quando a maioria continua simpatizando mais com Dany ter perdido Drogo e seu filho, do que com Mirri Marz Durr que perdeu tudo? E se ela fosse uma protagonista, seria diferente? Enxergaríamos Dany e Drogo como os vilões de Mirri?

      E a prostituta que Ros é obrigada a espancar e estuprar para Joffrey se satisfazer? Se ela tivesse sido concebida como um personagem principal, teríamos ligado mais pra ela ao invés de simplesmente atribuir aquela cena ao mau caratismo e ao desenvolvimento de Joffrey?

      Ao termos Sansa, Cersei, Dany e diversas outras mulheres mais importante sofrendo esses abusos, o abuso (que não é glamourizado, diga-se de passagem, em nenhuma das obras) torna-se horrível. Mesmo que não tenha sido a intenção dos autores (e digo isso por realmente não saber das intenções) abre-se uma discussão, não aceitamos os estupros, ficamos indignados. Fazemos tópicos e posts gigantes sobre Dany, Cersei, Sansa e sobre machismo, misoginia e estupro. E com razão. Mas, não deveríamos ter feito o mesmo por Jeyne Poole, por exemplo? Ela não merece isso só por ser uma “mulher secundária”?

      Quanto a experiência de estupro, eu acho que é muito limitante nos focarmos em uma única experiência. Eu me sinto enojado com estupradores, seja de mulheres, homens, animais, meninos ou meninas. Mas passar por algo tão traumático é extremamente pessoal. Mulheres fortes nunca foram vítimas de estupro? Por que é aceitável Gilly (Goiva) ter sido estuprada pelo próprio pai durante anos, amar o bebê desse fruto e ser uma mulher relativamente forte, quando de Cersei, Dany e Sansa é cobrado somente o martírio e a depressão do ato?

      Como eu disse no texto eu entendo perfeitamente se chocar com o conteúdo da série e do livro. Entendo as críticas à série e entendo as críticas aos livros. O que não entendo é a defesa de um ou de outro. Ambos retratam o mesmo mundo, atrelando situações diferentes a personagens diferentes. Mas veja bem: nenhum advento de estupro, morte e sadismo é novidade para quem leu ou viu a série e resolve embarcar na outra mídia.

  2. A diferença crucial entre Jeyne Poole e Sansa, na obra original, é que a primeira é uma pessoa quebrada, já antes do estupro e muito mais depois dele. Sansa não está quebrada porque não foi estuprada. E não foi estuprada justamente para não quebrar, porque o autor quer dar a ela um futuro.

    Na série, existem dois destinos possíveis para a personagem: crescimento e vingança ou quebra de espírito e retorno ao estado de vítima. O que a série provavelmente vai fazer é tornar a Sansa numa vingadora depois da “cena traumática”, que provavelmente a vai “fortalecer”. Se não for isso, ela vai retornar ao status de vítima, ao status Jeyne Poole .

    O caso é que simplesmente não é crível que Sansa dê uma super volta por cima e se fortaleça agora. Não é assim que vítimas de estupro reagem imediatamente após o ato, principalmente aquelas já recentemente traumatizadas por outros eventos. E certamente que não aquelas virgens que são estupradas por um sádico notório. Então, se a série apresentar isso, vai ser uma mentira que ainda indiretamente propaga a ideia errada de que é preciso uma mulher sofrer abuso para tomar as rédeas da própria vida. Será um crescimento falso e artificial.

    Se ela se enfraquecer e quebrar e tiver de ser resgatada por outros, o que é o que ocorre com pessoas estupradas de verdade (e o que acontece com Poole nos livros), voltamos ao status anterior de Sansa vítima e o desenvolvimento foi jogado no lixo.

    De qualquer forma erro, portanto. Eu tendo a acreditar que o que vai acontecer é o pior: a primeira opção. A segunda é tão pífia quanto ela em termos de narrativa e plot, mas pelo menos não difunde a ideia de que alguém precise sofrer violência para crescer.

    • Só uma coisa… Tudo bem utilizar o estupro como recurso narrativo para Jeyne por que ela estava quebrada? Putz! Se duvidar, isso é pior ainda. Portanto, você está sendo tremendamente superficial.

      Aliás, tomando da perspectiva de Jeyne, ela achava que finalmente estava indo rumo a algo melhor. Sobre Sansa, esta também estava “quebrada”. Viu o pai ser morto na sua frente, conviveu com os responsáveis pela morte de toda sua família, sendo constantemente humilhada e sofrendo abusos físicos e psicológicos.

      Sobre a série, cada a sua indignação quando uma vítima de estupro (Daenerys) acaba se apaixonando por seu estuprador. Bem crível isso, né? Convenhamos…

    • Felipe, no caso você tem que ver aonde estão os livros e o caminho natural para a série se encaixar com eles mais a frente.

      Sansa absorveu parte da personagem Jeyne, obviamente porque a série, como mídia audiovisual, não suporta tantas personagens simultaneamente por razões orçamentárias. Além disso, a trama de Sansa já estava basicamente como a dos livros, portanto a personagem precisava ir para algum caminho.

      Ao incorporar parte de Jeyne Poole, temos que lembrar o que acontece nesse arco. A jovem acaba se unindo a Theon e uma pequena força (liderada por Mance) é enviada para resgatá-la por pensarem ser Arya.

      Sansa, quando levada para Winterfell, está armando algo ao lado de Mindinho. Ela acredita nele e por isso aceita se casar com Ramsay, visando retomar o Norte. Antes disso, lembre-se que ela rejeita a ajuda de Brienne por acreditar mais em Petyr.

      Logo, se Sansa fosse bem tratada pelos Bolton, a história dela se resumiria em esperar pelo retorno de Mindinho para dar seguimento aos planos. Algo precisava acontecer para quebrar esse status e dar um sentido de URGÊNCIA para Sansa.

      Ao ser estuprada e ficar ciente da índole de Ramsay, imagino que a primeira reação de Sansa será tentar escapar dessa situação. Portanto, ela pode recorrer, na surdina, aos seus supostos aliados em Winterfell e também estabelecer uma aliança temporário com Theon.

      Isso, sem contar que se Brienne conseguir entrar em Winterfell, dessa vez é bem possível que ela acredite em suas intenções. Logo, perceba como a trama se desenvolveria, mesmo que para isso tenha sido necessário acontecer tal cena.

      Não significa que Sansa estará mais fortalecida ou qualquer outra coisa. Isso simplesmente cria a urgência para que ela necessite fugir daquela situação abandonando seu plano anterior (esperar por Mindinho).

  3. Agora vamos esquecer as milhares de personagens masculinas que também são mal desenvolvidas ou servem de muleta pra outros (enquanto mulheres são estupradas, homens costumam ser bestas violentas nos livros) e citar duas femininas pra justificar… o quê, mesmo? Ah, justificar uma personagem central ser tirada da sua história, ter o seu desenvolvimento atrasado e colocada no lugar de outra pra… quê mesmo? Ah, ser estuprada. Porque isso é essencial. Sansa passou por trocentos abusos (apanhou, foi humilhada, viu o pai morrer, virou refém, casou-se com um inimigo, acha que perdeu toda a família, etc), mas JAMAIS pensaria em se vingar e reconquistar o que é seu. Precisava de um estupro, porque estupro é o único rito de passagem que existe. E, claro, depois de quatro temporadas ainda precisamos ser lembrados de que estupro existe, especialmente naquela época. E quem achar pouco é hipócrita, por causa de duas personagens em 5 livros cheio de personagens variadas.

  4. E o mais engraçado é que Sansa, ainda mais sendo a verdadeira Sansa, não teve ajuda nenhuma de ninguém, além da velha esfolada. Mindinho largou seu troféu nas mãos de psicopatas, nenhum vassalo dos Starks apareceu, Brienne preferiu matar Stannis na última hora e só o Theon fez algo. Por quê? Porque tudo aquilo não passou mesmo de capítulos do Theon. Podia ser Sansa ou qualquer outra mulher lá. Só que a Sansa tem sua própria história, seus capítulos e uma importância maior do que a Jeyne, gostemos ou não. Isso não é problemático? Imagine a Daenerys ter seu plot interrompido por uns episódios pra ser jogada no colo do Montanha, por exemplo (já que não tem ninguém vilanesco muito importante em Essos), pra voltar a ser aquela menina assustada que era estuprada pelo marido. Por fim, é uma bobagem falar que os leitores acham ok a Jeyne ser estuprada. É uma parte horrível dos livros. Acredito que muitos (como eu) torçam pra ela ganhar importância na história, o que não é impossível, já que personagens vem e vão naquele mundo.

  5. E se o pessoal acha que estamos de mimimi quando reclamamos de personagens importantes sofrendo abuso, imagina se falássemos por TODAS as mulheres que se ferram na história. Parece gente que critica quem cuida de animal abandonado falando que tem muita criança no mundo pra ser adotada.

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