AVISO: O artigo a seguir está recheado de SPOILERS referentes aos livros da saga “As Crônicas de Gelo e Fogo” e da série “Game of Thrones”.

Antes de começar o artigo, gostaria de levantar alguns pontos. O primeiro ponto sendo que a teoria que eu abordo aqui não é de minha autoria. Apesar de eu não conseguir identificar uma origem exata para dar créditos mais específicos, eu posso dizer que ela é bem popular entre os usuários do fórum “westeros.org”. O segundo ponto é que esta teoria já é extensivamente debatida desde 2013 (até onde consegui fazer o seu rastreio), ou seja, ela não é nova e nem surgiu por causa de adventos da série de televisão, mas sim por elementos presentes nos livros das “Crônicas de Gelo e Fogo”. Dito isso, sigamos em frente.

Muito se discute sobre o destino de Shireen Baratheon nos livros de George R. R. Martin. Toda a história de Stannis flerta com a possibilidade de que – em algum momento, o autoproclamado Rei de Westeros terá que fazer um terrível sacrifício de alguma criança como tributo para o Deus Vermelho de Melisandre. Toda vez que parece que nós teremos finalmente uma criança sendo queimada viva para que Stannis ou Melisandre colham os louros, algo acontece (geralmente a intervenção de Davos ou, em outro caso, de Jon Snow) e essa criança é poupada.

Também permeando a história de Stannis, está toda a conversa de Melisandre sobre “o poder do sangue de um Rei”. A Mulher de Vermelho, em mais de uma ocasião, já sussurrou ao pé do ouvido de Stannis a necessidade desse… “Ingrediente” em particular para suas magias mais poderosas.

"Shireen Baratheon (Kerry Ingram)"
“Shireen Baratheon (Kerry Ingram)”

Isso nos deixa Shireen com duas de duas características de vítimas que Stannis e Melisandre vêm cogitando já há algum tempo colocar na fogueira para servir ao destino do Rei. “Mas Stannis jamais queimaria a filha dele”, alguém diria… Bem… A verdade é que Stannis não gostaria de queimar a filha dele, mas ele mais provavelmente o faria do que não. Especialmente caso ele seja colocado numa posição como a série o colocou no último episódio.

Se eu precisar sacrificar uma criança para salvar milhões da escuridão… Sacrifício… Nunca é fácil, Davos. Ou não é um sacrifício”.

A frase parafraseada acima pertence à Stannis Baratheon quando ele está decidindo sobre colocar Edric Storm (seu sobrinho e filho bastardo do falecido Rei Robert Baratheon) na fogueira. A frase em si já é bastante sinistra, mas a verdade é que o sacrifício de Edric Storm, uma criança, só foi realmente evitado por que Davos estava presente. Davos sempre foi, para todos os efeitos, o “anjo” para o “diabo” de Melisandre.

Ninguém pode negar também que Stannis possui o peso do mundo inteiro em suas costas. Melisandre o trata como “o escolhido do Deus Vermelho”, “Azor Ahai encarnado” e “aquele que será o Rei e acabará com a ameaça dos Caminhantes Brancos” e, geralmente, tudo o que Melisandre fala acontece. Em mais de uma ocasião Stannis e aqueles que o cercam já testemunharam os poderes e as visões proféticas dela e também o que acontece quando não lhe dão ouvidos (Stannis perdeu a batalha na Baía da Água Negra quando refutou Melisandre, desde então ele e muitos outros associam a derrota a isso). Se colocado numa encruzilhada em que as saídas são: o sofrimento e a morte de milhões ou a morte de sua única filha, Stannis pouparia Shireen? Por diversos motivos e alguns já expostos acima… Provavelmente não.

"Melisandre (Carice Von Houten) e Gendry (Joe Dempsie)"
“Melisandre (Carice van Houten) e Gendry (Joe Dempsie)”

Na série televisiva, a relação entre Shireen Baratheon e seu pai é conturbada. A menina vive isolada por longos períodos de tempo e demora um bocado desde a sua primeira aparição para que Stannis comece a ser um pai de verdade para ela. Já nos livros, a menina basicamente não possui nenhum tipo de relação com Stannis. Abraços afetuosos e papos sobre ser parte da família ou qualquer outra coisa do tipo? Esqueça, isso é imaginação da série. Jamais acontecem ou aconteceriam. Shireen é basicamente criada pelos servos e por um bobo da corte. Todos pelo castelo têm pena de Shireen, tanto pelas marcas de sua doença quanto pelo modo como ela (não) é tratada. Mas, apesar de tudo isso, Stannis a reconhece sim como sua única herdeira e chega a reivindica-la ao Trono de Ferro caso ele pereça em batalha. Mas… Isso ainda não impossibilitaria seu sacrifício. Como vimos através do próprio Stannis “um sacrifício precisa ser difícil, senão não é um sacrifício”. E o que seria mais difícil do que queimar seu próprio filho e único herdeiro? As palavras soam quase proféticas.

Sabemos que a obra de George R. R. Martin é baseada (porém não cópia direta) de outros mitos e livros diversos, como o Ragnarok, as histórias de Arthur e até mesmo a saga de Tolkien. Portanto, não é incomum teorias traçarem paralelos entre esses contos e as obras de Martin para tentar achar pistas sobre o futuro da saga. E é aqui que entraremos nesse território. Então vamos lá…

Agamemnon é uma figura mitológica Grega que iniciou uma guerra à Tróia tendo como maior motivação o possível adultério de Helena de Tróia (histórias divergem quanto ao fato de Helena ter sido seduzida ou raptada. Obras renascentistas costumam concordar que ela foi raptada, enquanto as de outrora, costumam concordar que ela fora seduzida). Ele também é comparado a um veado por Aquiles. Esses dois traços soam familiares? Pois deveriam. Stannis inicia uma guerra por causa do possível adultério de Cersei e seu símbolo é um veado coroado.

"Davos Seaworth (Liam Cunnigham) e Melisandre"
“Davos Seaworth (Liam Cunnigham) e Melisandre”

Após o sumiço de Helena, Agamemnon se preparava para a guerra contra os Troianos. Dois anos de preparação e ele finalmente estava pronto. Porém, em algum dado momento, Agamemnon matou um veado que pertencia à deusa Ártemis e por isso ela o amaldiçoou com pestilência e calmarias. Por essas razões suas frotas não conseguiram sequer deixar os portos.  Buscando uma alternativa, o herói rumou para os profetas atrás de uma solução e lhe foi dito que ele deveria ter que queimar sua filha Ifigênia para que ele pudesse então pagar pelo seu pecado e seguir seu destino. Algumas versões da história dizem que Ártemis poupou Ifigênia, aceitando outro sacrifício em seu lugar, mas a levando consigo para longe do reino dos homens; outras dizem que o sacrifício simplesmente seguiu como planejado. Em ambos os casos, Ifigênia deixa de existir na Terra.

Como isso se atribui à Stannis? Bem, no mundo de “As Crônicas de Gelo e Fogo”, matar um membro de sua família é considerado um dos maiores pecados que você pode cometer… Como foi o caso de Stannis com Renly, seu irmão mais novo. Renly por sua vez, também tem como um animal um veado coroado e já até mesmo apareceu em visões proféticas representado como um.  Stannis ao matar seu irmão de forma consciente ou não, pode ser considerado como estar realizando o pecado de Agamemnon, especialmente se aplicarmos os simbolismos. Como Agamemnon precisou pagar por seu pecado queimando sua filha Ifigênia em tributo para os deuses em vista de um bem maior, é fácil de supor que talvez o destino de Stannis seja o mesmo (e o foi, na série televisiva).

"O Sacrifício de Ifigênia" -
“O Sacrifício de Ifigênia” –

Outra parte importante do mito é que um dragão aparece após o sacrifício de Ifigênia. Se considerarmos que Jon é um possível Targaryen, as motivações para a morte de Shireen nos livros podem ser ligeiramente diferentes, mas sua execução ainda pode ser bem semelhante. Mas isso é outra discussão.

Apesar de Shireen, nos livros, estar localizada na muralha, ela não esta segura a partir do momento em que partilha do mesmo teto com Melisandre. E é exatamente isso o que acontece. Até então, os heróis das “criancinhas com sangue de Rei correndo em suas veias” eram Davos e Jon Snow, mas com ambos fora de ação não seria muito difícil para Melisandre com seus poderes persuasivos e seu controle sobre Stannis, reivindicar um sacrifício sem que seus planos fossem mais uma vez frustrados. Outra coisa que sustenta o destino de Shireen é o fato dos autores do seriado terem dito em entrevista algo que pode confirmar a morte da menina nos livros em breve.

Mas, como eu disse lá em cima, é tudo uma mera teoria…

2 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns pelo excelente texto Ciro. No meu entender, o sacrifício da Shireen se deu devido à motivos muitos “maiores” do que simplesmente conquistar Winterfell, como muitos estão achando. Acredito que foi uma medida desesperada do Stannis pois ele sabia que se o seu destacamento continuasse naquela situação (deserções, mortes, neve, etc.) não duraria muito tempo, foi uma questão de sobrevivência mesmo. A teoria é realmente interessante e parece se encaixar perfeitamente nos acontecimentos do livro/série, só não consegui assimilar ainda onde o Jon se encaixaria nela. Abraços.

  2. É interessante. Sou muito fã do Stannis mas não desconsidero que ele sacrifique a filha nos livros. Só creio que teria que ser por um motivo muito maior, não pra vencer uma nevasca e ter a chance de vencer a batalha de Winterfell, pra talvez ter chance de conseguir o trono. A morte de Shireen na série apresentou alguns problemas. Primeiro: ainda que represente a sobrevivência das tropas do Stannis e da sua luta pelo trono e pela humanidade, é uma coisa ainda muito pequena pra se sacrificar uma filha, uma inocente e herdeira, coisas que ele valoriza, amando ou não (mesmo porque há métodos alternativos que poderiam usar o sangue dela sem causar sua morte, ainda mais de um modo tão violento). Nem sacrifícios de soldados ele faz nos livros pra vencer a nevasca. Talvez se o Stannis souber da queda da Muralha e da chegada do Rei da Noite ele queime Shireen, pra cumprir de vez a profecia do Azor Ahai e ir pro tudo ou nada, pra morrer salvando a humanidade. Aí não haveria mais espaço pra pensar no trono nem em nada. Segundo: Melisandre teve visões tão enganadoras que só se pode concluir que ou R’hllor a estava trollando, ou ele mostrou coisas mais futuras, como Jon renascido vencendo os Bolton, ou ele não é poderoso como se pensa. E isso não existe nos livros, R’hllor é confiável. Por fim, mesmo que o Stannis tenha sido tão mal adaptado (propositalmente), ainda foi incoerente com a personagem.

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