Finalmente, após mais de vinte anos de espera, posso dizer que Jurassic Park ganhou uma sequência à altura do original. Para os fãs de cinema, principalmente os jovens aspirantes a nerd que viveram sua infância ou adolescência nos 90 (como eu), Jurassic Park foi um divisor de águas. O filme de 1993 foi uma experiência marcante e imersiva. Steven Spielberg, tendo sido alçado à fama com filmes de aventura que capturavam a imaginação do público, estava no seu auge. O dom de Spieibelg para criar sequências de ação imaginativas que prendiam os espectadores às cadeiras, somado aos inovadores efeitos digitais nunca antes vistos (e, claro, a sabedoria de Spielberg para usá-los com parcimônia), ajudou a criar um longa de aventura clássico que, na mão de outro diretor, poderia não ser algo tão especial.

Bom, mas essa introdução toda foi apenas para contextualizar e falar um pouco sobre a importância do filme original na história do cinema. Jurassic Park foi um sucesso e ganhou duas continuações, O Mundo Perdido e Jurassic Park III, que, apesar de bem inferiores, também foram bem nas bilheterias. Mas a franquia estava visivelmente desgastada e precisava de um bom descanso. Era necessário voltar para prancheta e encontrar uma idéia que valesse a pena ser contada. Mas, após anos de promessas e projetos de um quarto filme que nunca saíam do papel, os fãs passaram a aceitar o fato de que este, talvez, nunca viesse. E a franquia entrou num limbo de 14 anos.

jurassicworld2

Mas, obviamente, era questão de tempo até a Universal desenterrar a franquia que lhe rendeu tanto no passado. Aí seriam dois caminhos a seguir, uma sequência direta (mais difícil tendo se passado tanto tempo) ou um recomeço total (com certeza o caminho mais fácil). No final, optou-se pelos dois, Jurassic World consegue ser, ao mesmo tempo, uma sequência e um reboot (em partes) do original de 1993. O filme de Colin Trevorrow presta homenagem e traz diversas referências a momentos e cenas de Jurassic Park, mas também expande o que foi feito no passado. O parque original, por exemplo, é mencionado diversas vezes, assim como seu criador John Hammond (Richard Attenborough), mas fica claro que este novo Jurassic World é algo totalmente novo, como uma versão 2.0. O filme já começa com o parque aberto e funcionando a pleno vapor. Este Jurassic World é como uma mistura de Sea World (inclusive nas críticas sobre como os animais são tratados) e aqueles safaris pela savana africana. Já em atividade há algum tempo, o projeto é um sucesso, porém, para manter o interesse do público, faz-se necessário apresentar novidades de tempos em tempos, e é aí que começa o problema.

A longa espera por um novo filme da franquia deveu-se à dificuldade de encontrar uma história que funcionasse dentro daquele universo. Veja bem, a mitologia de Jurassic Park não abre muito espaço para continuações, não existem muitos lugares para onde levar a história, pelo menos não sem descaracterizá-la e fugir muito do que fez o primeiro longa funcionar tão bem. Mas, ao mesmo tempo, isso acaba limitando o que pode ser feito e fica aquela sensação de déjà vu. Prova maior disso foram as duas primeiras continuações (principalmente O Mundo Perdido), que foi uma oportunidade totalmente desperdiçada, trazendo mais do mesmo e seguindo a velha fórmula do maior e melhor.

jurassicworld3

A questão toda era achar a idéia certa, esta teria de ser inovadora e, ao mesmo tempo, manter-se fiel ao espírito da franquia. Há muito Spielberg dizia ter uma ótimo conceito para dar continuidade à série, mas ainda precisava do roteiro certo. Alguns elementos dessa premissa original acabaram vazando ao longo dos anos – muitas delas com idéias que, de tão bizarras, faziam os fãs preferirem que a franquia continuasse enterrada. Ficamos sabendo que a história envolveria manipulação genética e mistura do DNA de dinossauros com o de outros animais (talvez até mesmo de humanos). Após a entrada de Colin Trevorrow na direção, o projeto passou a caminhar a passos largos e, em diversas ocasiões, os envolvidos afirmavam o quão impressionante era o conceito do novo filme. Seria uma volta às origens, porém, com reviravoltas para torná-lo algo novo e original. E aí veio o primeiro trailer e, com ele, uma enxurrada de críticas.

Resumidamente, a preocupação e as reclamações dos fãs durante meses giraram em torno de três coisas: um dinossauro vilão que, na verdade, não era um dinossauro e, sim, uma vitamina genética de dinossauros (e outras coisas), basicamente um monstro; velociraptores domesticados (WTF?); e efeitos digitais ruins… Quando digo ruins, quero dizer ruins ao ponto de serem inferiores aos do original de 1992 em algumas cenas.

jurassicworld4

Porém, com o tempo e o lançamento de outros trailers e vídeos, os ânimos foram se acalmando. Os efeitos foram claramente melhorando e tornando-se mais realistas, e essas novas idéias, apesar de ousadas, poderiam ser um diferencial e render uma boa história se bem conduzidas. E é com grande alívio que afirmo que o resultado final é bem melhor do que o esperado. Esse é mais um exemplo de trailers que pintam uma imagem diferente do filme, mas, nesse caso, o trailer o faz parecer pior do que é. O que o filme entrega no final é superior, e até mesmo diferente, do que mostrado nos trailers. Pode até se dizer que os trailers são meio que enganosos nesse sentido, pois, muito do que foi mostrado neles e em vídeos promocionais, não é bem o que aparece. Não vou revelar spoilers aqui, mas acredito os fãs de longa data não precisam se preocupar, Jurassic World foge menos das raízes da franquia do que se imaginava. E acredito que até os mais puristas ficarão satisfeitos com o resultado, os novos elementos sugeridos nos trailers estão todos ali, mas são coerentes com a história, tudo funciona e faz sentido dentro daquele contexto. E quem sentiu falta do Tiranossauro Rex durante a promoção do longa, principalmente aqueles que acharam que este foi injustiçado no último filme, não se preocupem! O T-Rex tem seu momento para brilhar e a sacada é muito boa.

Minha única ressalva fica mesmo para os efeitos que são um pouco irregulares. Apesar de muito melhores do que o mostrado nos trailers, em alguns momentos é impossível não perder um pouco da imersão e sair do filme quando não acreditamos que aqueles animais são reais e estão ali com os atores. Esse, aliás, foi o grande trunfo do original, nos fazer acreditar que os dinossauros voltaram à vida. E nisso, Steven Spielberg era mestre e fazia a diferença, pois, conhecendo as limitações dos efeitos digitais da época, sabia muito bem quando não utilizá-los e quando recorrer a outras técnicas, como os efeitos práticos com bonecos animatrônicos. Não que Jurassic World não os utilize, pelo contrário, os bonecos estão presentes e mais perfeitos do que nunca. Eles são usados em conjunto com efeitos digitais que ajudam a trazê-los à vida, pense neles como bonecos animatrônicos com uma maquiagem digital.

jurassicworld6

A grande diferença em relação ao original é o excesso. Enquanto Jurassic Park segurava a supresa e demorava para nos mostrar os animais em toda sua glória (O T-Rex aparece pela primeira vez na metade do filme), Jurassic World esfrega seus dinos na cara do público, e essa exposição nem sempre funciona. Mas isso não chega a atrapalhar a experiência, o filme compensa essas pequenas falhas ao recapturar toda a magia e encantamento do filme original. Fica claro, desde o início, a paixão dos envolvidos pelo projeto, são várias as referências e menções aos acontecimentos do parque original e eventos do primeiro longa. Os fãs encontrarão easter eggs por toda parte. Mas as homenagens não param por aí, melhor do que apenas reverenciar o original com referências, Jurassic World triunfa ao conseguir resgatar os elementos que fizeram do primeiro um sucesso. Está tudo ali: a família disfuncional, as duas crianças em perigo (novamente irmãos), o encantamento delas com esses animais pré-históricos, o adulto que não sabe lidar com crianças, o clima de aventura e as sequências de ação que te deixam grudados na cadeira.

Jurassic World não é um filme perfeito, como nos anteriores, os personagens parecem existir apenas para cumprir suas funções no roteiro. Seus relacionamentos não parecem reias, o que acaba dando origem a momentos embaraçosamente forçados. Mas esse também era um problema no original e tenho certeza de que isso não é algo relevante para o grande público (e nem para os fãs da franquia). Apesar disso, Bryce Dallas Howard confere energia a sua personagem Claire, sua relação com o Owen de Chris Pratt, apesar da falta de química dos dois, gera bons momentos de descontração. Pelo menos, as duas crianças Gray (Ty Simpkins) e Zach (Nick Robinson) tem interpretações melhores do que o Tim (Joseph Mazzello) e Lex (Ariana Richards) do original, mas alguns momentos parecem meio que fora do lugar.

jurassicworld7

Mas todas essas ressalvas não conseguem tirar o brilho do filme. Eu sempre fui fissurado em dinossauros, tenho um T-Rex em miniatura na minha mesa de escritório que comprei já adulto, e, como um eterno fã da franquia (assisti o primeiro filme mais vezes do que gostaria de admitir e li os dois livros de Michael Crichton algumas vezes), posso dizer que Jurassic World me fez voltar no tempo. Por duas horas voltei a ser criança e me vi finalmente visitando o Parque Jurássico. O mesmo pode ser dito da maior parte do público que assistiu comigo a sessão para imprensa. Em diversos momentos, o público ria e vibrava com o filme, chegando a aplaudir numa cena em particular. A maioria parecia se divertir bastante e os comentários ao final foram bem positivos. Acho que a maior parte do público mais velho guarda um certo carinho pelo filme original e Jurassic World consegue tocar nesse saudosismo (é difícil não se emocionar ao ouvir as primeiras notas da música tema original composta por John Williams), proporcionando diversão despretenciosa. É cinema pipoca bem feito.

Ficha Técnica
Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World) – 2015 (EUA)
Duração: 124 minutos
Gênero: Aventura
Direção: Colin Trevorrow
Roteiro: Rick Jaffa, Amanda Silver, Colin Trevorrow, Derek Connolly
Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Ty Simpkins, Nick Robinson, Irrfan Khan, BD Wong.

jurassicworld5

7 COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui