Passados quase cinco anos do lançamento de A Esperança, vamos ver como Suzanne Collins se sai criando uma franquia tão aclamada pelo público do início ao fim.

AVISO: durante TODA a crítica os spoilers serão usados ao extremo. Por isso, se ainda não leu, feche a página e vá ler os livros pois eles valem a pena.

Suzanne Collins consegue criar uma das melhores distopias atuais, cheia de energia e sagacidade, a trilogia consegue se manter até o fim como uma série incrível, embora seus pequenos tropeços acabem por estragar o seu final.

Jogos Vorazes é fascinante do início ao fim. Há ação a todo momento e Suzanne é ótima administrando seu trabalho com uma escrita fantástica, rápida e muito diferente, ela certamente te capturará.

Em um mundo distópico, o livro narra em primeira pessoa a vida de Katniss Everdeen diante de como tudo se encontra: a Capital é soberana e obriga os outros 13 Distritos a trabalhar para ela de forma abusiva. Para mostrar seu poder, a Capital seleciona um menino e uma menina de cada distrito para lutarem até a morte. O vencedor fica rico. Diante da escolha de sua irmã, Katniss se voluntaria em seu lugar e seu parceiro/rival é Peeta Mellark.

E Katniss te convencerá e você com toda certeza sentirá empatia por seus ideais já que sua vida fora devastada pela Capital. A criação de personagens é fantástica, ambos Peeta e Katniss serão colocados à prova a todo tempo, seus caracteres serão exibidos e isso é excelente. Um exemplo que escapou do filme é a desconfiança de Katniss com Petta, enquanto a vemos tentar a todo o momento imaginar as razões para ele ser tão bonzinho com ela daquele jeito, coisa pouco explorada no filme.

Diante deste enredo, vemos como Katniss passa pelos desafios de estar na arena e como lida com tudo isso. Tudo parece bem encaixado e em momento nenhum temos um excesso de informação. Se As Crônicas de Gelo e Fogo são conhecidas por seus extensos trechos descritivas, Jogos Vorazes pula tudo para ser direto ao ponto em todos os momentos, e isso te fará ler o livro inteiro em pouquíssimo tempo.

É fascinante ver como Suzanne consegue conduzir o leitor durante toda a saga da Arena sem que haja empecilhos. Ficamos sabendo da vida de Katniss antes e o quão miserável as pessoas dos Distritos vivem diante de uma ditadura severa comandada pelo Presidente Snow, outro personagem bastante memorável. Isso tudo sem perder o fôlego ou deixar o fluxo das memórias interromper o combate sanguinário da Arena.

Se as sagas da mesma época de Jogos Vorazes como Percy Jackson e os Olimpianos copiam descaradamente as ideias de outras sagas teens, Collins segue um caminho quase próprio diante disso. É impossível não comparar seu trabalho com o espetacular Battle Royale de Koushun Takami, os dois seguem a mesma trama, mas o trabalho do japonês é certamente mais adulto e bem menos político enquanto Suzanne coloca a política como base para o enredo central.

A trama política não é apresentada nesse volume, mas fica bastante claro como as coisas na Capital funcionam e o quão poderosa ela é sobre os Distritos que passam fome, servem de escravos para a Capital e veem seus filhos sendo mortos diante de todos em seus jogos anuais.

Com um final bastante aberto à uma sequência, Jogos Vorazes consegue se encerrar deixando o leitor intrigado para saber o que Peeta fará, o que Katniss irá sofrer e como será a vida dos dois após o atrevimento da garota.

Enfim, Jogos Vorazes é um must para quem quer ler uma distopia bastante interessante, leve e que consegue ser bastante audaciosa, sem enfrentar problemas de escrita ou desenvolvimento de personagem. Um excelente livro.

dryponder // DeviantArt

Se Jogos Vorazes não tinha política o suficiente, Em Chamas traz isso sem problemas ou firulas. E assim, nós adentramos perfeitamente ao que a trama política do livro quer mostrar ao leitor, deixando a nossa curiosidade saciada para o que Katniss irá enfrentar pelas frutinhas envenenadas que um dia ousou pensar em comer.

 Logo no início somos recebidos com Katniss encontrando o Presidente Snow em sua casa e como todo o seu jogo político irá funcionar, como ela deve fingir um relacionamento com Peeta enquanto seu envolvimento com Gale ainda é latente. Ambos personagens são ótimos e a química entre o antagonista e o protagonista é espetacular, pois Snow consegue ser aquele vilão que você odeia por ter poucas palavras e muita ação.

Continuamos com Suzanne e sua fascinante habilidade de contar uma história sem rodeios, puxando os leitores aos fatos e dando ênfase à ação. Mesmo com uma rodada de romance maior, Em Chamas segue o seu antecessor em combate e batalhas sem antes deixar de mostrar como andam os Distritos.

E essa parte de exibição de vida dos outros Distritos é a mais prejudicada nisso tudo. Embora você consiga entender o que ocorre em Distritos específicos, não há grande destaque à revolução que Katniss está organizando sem saber. Tirando o Distrito de Rue, você pouco fica sabendo dos outros, a travessia pelos Distritos é rápida e a autora se preocupa mais em exibir como Katniss está sofrendo – ou enlouquecendo – com seus pesadelos sem fim do que tentar explicar como alguns Distritos estão comparados com outros.

As pequenas reviravoltas no enredo tornam a trama ainda mais fascinante do que ela já é. O que dizer quando Peeta revela que Katniss está grávida só para incitar ainda mais a rebelião dos Distritos ou causar pânico nos moradores da Capital? Ou quando os Tributos unem suas mãos para exibir o quanto discordam com a nova edição dos Jogos Vorazes feitos especificamente para matar Katniss e Peeta sem soar como um assassinato bancado pelo Presidente Snow? A autora consegue dar esses efeitos de surpresa que são ótimos durante a trama.

A adição de outra edição dos Jogos consegue adicionar mais dinamismo no livro para as pessoas que acharam que a obra ficou apenas no romance forçado entre Peeta e Katniss. E neste romance forçado é que encontramos os melhores desenvolvimentos de personagens, ambos parecem tão reais e interessantes. Peeta parece um jovem que ama Katniss como se nunca tivesse amado ninguém enquanto Katniss está dividida entre o rapaz e Gale.

Nesse pseudoromance entre Katniss e Gale é onde talvez more um pequeno problema pois ele não me pareceu muito real. Gale é um rapaz interessante, praticamente uma versão masculina de Katniss, mas a garota parece ter mais medo de perder Gale do que engatar um romance de verdade com Peeta, e isso soa muito injusto.

A volta de Katniss antes da nova edição dos jogos para seu Distrito também muda a rotina de toda a sua família, o que antes era um lugar de fome se torna o reduto do excesso de comida, dinheiro e riqueza, um contraste diante do resto da população que passa fome e se arrisca a trabalhar na mina para ganhar misérias.

Assim, também conseguimos uma maior identificação com a mãe de Katniss – embora durante toda a saga ela pareça pouquíssimo explorada -, sua irmã e outros membros de seu Distrito, um fator bem importante para o desenrolar da série.

Se muitos acharam o romance forçado entre os personagens e uma maior centralização dele do que nas coisas ao redor, acredito que a parte política certamente compensará. O Presidente Snow consegue ser astuto e estar sempre um passo à frente de Katniss. É realmente muito interessante ver o jogo que os dois fazem sem muitas palavras.

Inserir uma personagem feminina como protagonista foi uma sacada de mestre para a autora que poderia ao máximo a masculinizar, mas Collins coloca Katniss como uma personagem à altura ou até passando de protagonistas masculinos que muito conhecemos, criando um nicho pouco explorado de personagens femininas que são fortes.

Alguns personagens são bem menos explorados e simpatizados no livro do que no filme. Effie, por exemplo, não é tão carismática e divertida quanto nos filmes, você não criará muitos laços com ela enquanto lê. Já Haymitch é mais dinâmico, um centro para o grupo, embora não tão importante quanto no filme. Há também alguns personagens bastante legais como a trupe toda de preparação de Katniss que não aparece nos filmes mas são divertidos nos livros.

A sequência final do livro é excelente também e novamente nos faz querer ler o próximo logo em sequência. Com personagens mais bem detalhados, romances acontecendo e muita confusão entre os Distritos e a Capital, Em Chamas prova que consegue ser uma sequência perfeita para a série.

hjpenndragon // DeviantArt

Dentre todos os livros da série, A Esperança é o menos interessante quando deveria ser o mais, assim, temos então um livro bom, repleto de erros finais que comprometem a saga de uma maneira satisfatória.

Diante dos acontecimentos de Em Chamas, somos então jogados no Distrito 13 onde até então só existiam rumores sobre a sua possível sobrevivência entre os outros Distritos.

Mais da metade do livro se passa somente neste local, então, é bem provável que muitos o achem o mais chato e parado, mas ele ganha seus méritos por tentar explorar ideias não exploradas antes.

O grande trunfo de Collins é conseguir ter erguido uma saga monstruosa com personagens que são bem explorados e usados, uma história interessante e nova, e acima de tudo, uma narrativa tão gostosa de ser lida que você irá querer mais.

Seu fluxo é gostoso, a adição do sistema do Distrito 13 é bacana, Katniss não sendo a principal também é interessante, a apresentação de personagens não é tão agradável, mas diante de todos os fatores, A Esperança consegue se manter bem em quase todos os quesitos.

As visitas de Katniss ao seu Distrito servem para explicar o que ocorreu, a ressurreição dos outros Distritos diante da Capital também é funcional, e as propagandas políticas servem bem para manter o leitor informado sobre o que acontece.

Embora mais lenta, a trama segue o mesmo ritmo anterior, contando apenas o necessário, explorando a cabeça de Katniss sobre ela ser o Tordo, exigindo do leitor que ele permaneça atento aos detalhes, porque personalidades de possíveis vilões serão jogados ao ar e cabe a você acreditar ou não.

Os personagens que são adicionados – sua equipe de filmagem, Coin, os outros soldados e a própria população do Distrito 13 – parecem não ser muito interessantes, pois a autora não exige muito deles, pois não há tempo de construir suas personalidades. O que vemos é uma adição exagerada de personagens que não receberão carisma o suficiente.

As questões abordadas abaixo comprometem severamente o encerramento da trilogia. Embora ainda bom, o livro não conseguiu vencer as expectativas das pessoas e por vezes ele soa apressado de uma maneira geral.

Existem problemas de personagens e até falta de nexo entre ações e reações. As cinquenta páginas finais foram excruciantes para mim pois eram arrastadas, chatas e nada convincentes. Katniss encontrar um lugar para se abrigar na capital me pareceu devastadoramente semelhante ao trecho de Harry Potter e as Relíquias da Morte de uma maneira curiosa. Harry também não acha alguém para abrigá-lo quando chega em Hogsmeade?

As mortes finais soam muito forçadas e sem devido desenvolvimento, deixando você sem se impactar com o ocorrido. Finnick morre e você mal se dá conta. Prim morre e você nem ao menos liga. Eu mesmo tive que reler o trecho diversas vezes para entender direito que se tratava de Prim e não qualquer ilusão ou flashback de Katniss. Aliás, eles parecem colocados ali para justificarem suas mortes, Suzanne precisava matá-los, então serão enviados para a morte certa.

Existe um pequeno problema de tradução que me incomodou ao longo do livro. Algumas palavras como altercation (briga) e concern to (refente a/relativo a) foram traduzidos ao pé da letra, como nas frases: “o que me deixa aliviada por não ter de tomar nenhuma decisão concernente a moda.” E “Nós tivemos de deter todos eles depois de uma altercação a respeito de alguns pães”. Me soou bobo porque ninguém diria isso, não é usado e pareceu um pouco deslocado.

O que dizer do final? Dexter fez isso e eu achei terrível. Há essa lacuna de tempo em que Katniss pega fogo e ela recobra a consciência onde tudo já está resolvido, fato que estraga ainda mais, mesmo ela te contando o que houve depois.

Gale simplesmente some deixando uma Katniss catatônica que não me convenceu em nenhum momento. Ele era um dos únicos personagens que jamais a deixaria, e é exatamente isso que ele faz, só que o contrário.

A própria persona de Katniss é enfraquecia ao extremo. Ela parecia imponente no primeiro livro, forte e sagaz até perceber que deve andar conforme a Capital manda. Então, não seria justamente nesse último livro onde ela não tem absolutamente nada a perder que veríamos ela sedenta, feroz e cheia de raiva? Pois bem, não. Ela passará boa parte do livro se escondendo em armários, desmaiando e à base de “morfináceos” porque a autora assim escolhe. E se havia qualquer coisa a ser bem trabalhada no final seria certamente a identidade de Katniss.

O romance tão bem trabalhado nos dois primeiros livros é esquecido pois Peeta volta lelé da cuca. Mas esse retorno dele não me enganou também. Porque raios a Capital o deixaria retornar? Ele parecia muito mais útil lá onde poderia ser torturado. O que dizer da revolta de Katniss contra o garoto? Ela está o odiando, querendo sua morte quando volta e você fala: Por quê?! Passamos dois livros vendo seu coração em conflito para você o odiar depois?! Novamente não faz sentido.

Suzanne Collins parece ter perdido a mão quando mais deveria ter tido pulso firme, seja para postergar o lançamento de sua última obra, ou até mesmo adiar indefinidamente, mas escolhe por lançar um livro apressado, com um final bem meia boca e com diversos pontos de interrogação em sua cabeça além de múltiplas pontas soltas no conjunto final da obra

Para finalizar, a saga Jogos Vorazes é fantástica, embora seus deslizes finais comprometam um pouco a série, você estará satisfeito com a criação de Suzanne Collins e como um mundo distópico se tornou uma das modas do momento, desejando outro para completar o vazio que você sentirá ao finalizá-lo.

Prós:
– Escrita fantástica
– Visão em primeira pessoa
– Personagens interessantes
– Trama intensa

Contras:
– Subtramas mal exploradas
– Finalização ruim e apressada

 Editora Rocco          1240 páginas          2010-2011

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